Envelhecimento populacional, mudanças na estrutura das famílias e o aumento na demanda por suporte para os entes idosos

Luiza de Marilac de Souza


O processo de transição da estrutura etária pelo qual o Brasil ainda está passando, foi desencadeado pelo declínio significativo da mortalidade entre os anos 40 e 60 e pela redução das taxas de fecundidade a partir do final da década de 60, que se generalizou rapidamente por todo o país. Isso levará a uma população com um perfil envelhecido e as mudanças demográficas mais notáveis ocorrerão nas faixas de idade extremas. É o que apontam projeções populacionais, indicando que a população muito idosa (80 anos ou mais), que em 2010 representava 21% da população idosa brasileira (65 anos ou mais) e 1,5% da total, em 2060, representará 33% da idosa e 8% da população total. 

No Brasil, a família é vista como a principal fonte de apoio aos idosos, porém em função da queda de fecundidade e ingresso maciço das mulheres no mercado de trabalho, a capacidade de ofertarem cuidados a entes idosos diminui à medida que a demanda aumenta. Leme e Silva (2002) chama atenção que a população idosa brasileira é proveniente de uma época com valores culturais arraigados, nos quais a família ampliada exercia um papel importante. A convivência com avós, tios e primos fazia parte do cotidiano e era a família que, de alguma forma, provia as necessidades de apoio e de saúde aos seus membros. Tal situação, de valorização afetiva, efetiva e social da família, permaneceu e permanece no consciente ou no subconsciente da grande maioria dos idosos brasileiros.

Ferreira (2007) reforça que o cuidador informal de idosos, que quase sempre é um familiar, é o indivíduo que auxilia o idoso sem ser pago por isso. Na maioria das vezes é um papel assumido pela mulher, com predominância de esposas e filhas, e a intensidade do cuidado depende do grau de necessidade do idoso. Utilizando projeções, a autora observou que a relação entre o idoso que potencialmente demanda assistência e o potencial cuidador informal tende a ficar cada vez mais desproporcional, devido ao envelhecimento populacional, mesmo considerando um cenário mais otimista.

A Razão de Suporte Potencial (RSP) que é a relação entre pessoas que são potenciais cuidadores (entre 20 e 64 anos) e os que, em geral, precisam de cuidados (65 anos e mais), aponta que, em 2060, haverá apenas dois potenciais cuidadores para cada demandante de cuidado, sendo que em 2010 eram oito potenciais cuidadores. Este tipo de evidência reforça a importância em se pensar em alternativas para o cuidado do idoso dependente de auxílio e da necessidade de investimentos em saúde. Muito embora a família ainda seja a principal instituição na provisão e financiamento de cuidados informais de longa duração para os idosos especialmente na América Latina e em alguns países da Europa, como Espanha e Itália, em algumas sociedades o Mercado e/ou o Estado também desempenham um papel fundamental. Por exemplo, em países escandinavos (Noruega, Suécia e Finlândia), Alemanha, Japão, Canadá e Austrália, a participação do Estado é bastante ativa, fornecendo acesso universal a esses cuidados. Em contraposição, nos Estados Unidos, a participação do mercado é relativamente mais elevada e os indivíduos contam com a oferta de seguro privado de cuidados de longa duração (Casado Marín e López Casanovas, 2001).

No Brasil, ainda é insipiente os programas formais por parte do Estado para prestar assistência aos idosos que não podem contar com auxílio da família, ou que não possuem recursos financeiros e necessitam de apoio. Para os que não podem contar com a ajuda informal, a institucionalização ainda é a principal alternativa.

Apesar do aumento da demanda por Instituições de Longa Permanência de Idosos (ILPI), os residentes destas representam um percentual muito pequeno da população idosa brasileira, o que pode ser explicado, pela baixa oferta de instituições, altos custos, preconceitos e estereótipos aliados ao fato de os idosos de hoje preferirem ser cuidados pelas suas famílias. Essa expectativa pode estar associada ao fato de que a institucionalização, no passado, era uma prática assistencialista, que abrigava majoritariamente pessoas em situação de pobreza, dependentes e doentes e abandonados pelos parentes.

De acordo com Camargos, Rodrigues e Machado (2011), para alguns idosos, viver com os familiares pode ser essencial, tanto para ajudar a resolver questões físicas ou financeiras, como para compartilhar a convivência diária. Para outros, o convívio pode ser apenas uma opção, em detrimento de uma institucionalização. Morar sozinho pode ser outra alternativa para idosos que querem manter sua independência e autonomia ou mesmo inevitável para aqueles que, apesar de se sentirem sós ou abandonados, não possuem outras pessoas com as quais possam viver. Segundo entrevistas com idosos que residiam sozinhos em Belo Horizonte realizadas por Camargos (2008), a família foi apontada como o refúgio ideal. Ser cuidado por um familiar pode ser encarado como uma retribuição ao carinho e cuidado que estes idosos ofereceram ao longo de suas vidas, um caminho natural de uma sociedade acostumada a cuidar de seus pais na velhice ou mesmo uma alternativa para quem, apesar de desejar outro tipo de solução, não teria condições financeiras para contratar ajuda paga e continuar vivendo em sua própria casa ou em uma residência para idosos com atenção adequada.

 

Referências bibliográficas

 

Leme, L.E.G., Silva, P.S.C.P. 2002. O idoso e a família. In: PAPALÉO-NETTO, M. (Org.) Gerontologia: a velhice e o envelhecimento em visão globalizada. São Paulo: Atheneu, cap. 9, p. 92-97.

Ferreira, A.R.S. 2007. Perspectivas da oferta de cuidadores informais da população idosa, Brasil 2000-2015. 118 f. Dissertação (Mestrado em Demografia) - Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.

Casado D, López G. 2001. Vejez, dependencia y cuidados de larga duración. Situación actual y perspectivas de futuro. Colección Estudios Sociales.6:142-95.

CAMARGOS, M. C. S.; RODRIGUES, R. N. ; MACHADO, C. J. . 2011. Idoso, família e domicílio: uma revisão narrativa sobre a decisão de morar sozinho. Revista Brasileira de Estudos de População (Impresso), v. 28, p. 217-230.

Camargos, M.C.S. 2008. Enfim só: um olhar sobre o universo de pessoas idosas que moram sozinhas no município de Belo Horizonte (MG), 2007. 138 f. Tese (Doutorado em Demografia) - Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.

 

 

 

 

 

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